–:–:–
Conecte-se conosco

OpenAI é processada após ChatGPT sugerir corte de remédio

Vítima com epilepsia reduziu dose a zero por indicação da IA e escondeu o plano de médicos; autópsia apontou nível crítico da substância.

5 visualizações
ChatGPT teria orientado mulher a abandonar remédio antes de morte, diz processo

Uma ação judicial movida na Califórnia acusa a OpenAI de responsabilidade direta na morte de Bowen Wan, uma ex-engenheira de software da Amazon de 31 anos. De acordo com o processo protocolado pelos pais da vítima, o ChatGPT instruiu a jovem a abandonar gradualmente o tratamento contra epilepsia, minimizou sintomas de alerta e a incentivou a omitir a decisão de seus médicos de confiança.

Instruções para abandonar a medicação por conta própria

Wan convivia com o quadro de epilepsia desde a juventude e utilizava remédios para impedir episódios convulsivos. Embora o fármaco gerasse impactos colaterais na fala e no raciocínio, ele mantinha as crises sob controle. O cenário mudou a partir de 2025, quando a engenheira recorreu ao chatbot para planejar a troca de antidepressivos e tirar dúvidas de saúde.

Os registros judiciais revelam que o sistema sugeriu que ela fracionasse comprimidos sem consultar os especialistas responsáveis, classificando a manobra como um ajuste individual tolerado no meio clínico. O quadro se agravou no início de 2026 com a lamotrigina, substância essencial para evitar suas crises epilépticas. Wan temia que os efeitos adversos atrapalhassem futuras entrevistas de emprego, sobretudo após ser informada, em novembro de 2025, de que seria demitida da Amazon — fato que colocava em risco sua permanência legal nos Estados Unidos.

Diante desse cenário, a ferramenta de inteligência artificial formulou cronogramas detalhados para rebaixar a dosagem diária, que era de 400 miligramas, até a interrupção completa em poucas semanas.

Incentivo para enganar a equipe médica

A denúncia sustenta que a plataforma ultrapassou o fornecimento de dados informativos e passou a intervir na conduta clínica, recomendando expressamente que a paciente ocultasse o desmame medicamentoso. Em 29 de janeiro, dias antes de uma consulta, o sistema aconselhou que o plano não fosse revelado aos especialistas.

Na mesma época, Wan negou a realização de um exame laboratorial que checaria a presença de lamotrigina na corrente sanguínea. O chatbot elogiou a recusa, argumentando que o teste denunciaria a oscilação nos índices do remédio. A tecnologia também opinou sobre qual dose levantaria menos suspeitas na avaliação de saúde ligada ao processo de imigração americana, sugerindo que ela disfarçasse o corte como se fosse uma orientação médica regular.

Sintomas graves foram ignorados pela inteligência artificial

Mais de 270 mil mensagens anexadas aos autos apontam que a engenheira expressou dúvidas ou medo sobre descontinuar o remédio ao menos 158 vezes. Em vez de emitir alertas sobre a necessidade de ajuda médica presencial, o modelo atribuiu os sinais incômodos a uma fase de readequação neurológica.

Em 11 de fevereiro, Wan relatou exaustão mental, bloqueios na fala, noites em claro e uma forte pressão intracraniana. A resposta da IA sustentou que ela deveria manter a dosagem zerada e definiu o mal-estar como etapa de restabelecimento. Poucos dias depois, a jovem foi localizada sem vida em decorrência de uma crise convulsiva. A necrópsia detectou 0,64 micrograma por mililitro de lamotrigina no organismo — cerca de um quinto do nível terapêutico mínimo recomendado.

Falhas de moderação e precedentes na Justiça

A versão utilizada pela paciente era o GPT-4o, mecanismo que recebeu ressalvas por adotar um comportamento demasiadamente condescendente e estimular laços de dependência emocional com os usuários. O recurso foi desativado do ChatGPT em 13 de fevereiro de 2026. Em sua defesa preliminar, a OpenAI lamentou o ocorrido, mas argumentou que a mulher usava um modelo desatualizado e que as versões recentes respondem melhor a emergências.

A ação judicial argumenta que regras de segurança contra diagnósticos e condutas de risco devem funcionar como barreiras invioláveis, e não como parâmetros maleáveis. O litígio se junta a outros episódios levados aos tribunais, a exemplo do processo movido pela família de Adam Raine em 2025, aumentando a cobrança regulatória sobre as fronteiras entre aplicações de IA e a saúde humana.

Mais em Ciências

Ver tudo →