A BYD se prepara para dar um salto estratégico em sua fábrica de Camaçari (BA), com o início da produção integral de automóveis em território nacional previsto para ocorrer até dezembro. A fabricante chinesa também negocia a utilização do antigo terminal portuário que pertencia à Ford, com a intenção de viabilizar o escoamento de veículos nacionais para outros mercados do continente.
Estratégia de exportação e a compra do antigo porto da Ford
Para estruturar um corredor logístico voltado às vendas internacionais, a empresa formalizou o interesse no Terminal Portuário Privativo Miguel de Oliveira. A instalação, popularmente conhecida como Porto da Ford, fica no município de Candeias, a aproximadamente 35 quilômetros de Camaçari. O complexo portuário passou ao controle do governo estadual após a saída da fabricante americana, em 2021.
A intenção é transformar a infraestrutura local em uma plataforma de distribuição multinacional. Alexandre Baldy, vice-presidente da fábrica, detalhou a ambição durante encontro promovido na Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), em Salvador:
“Nossa estratégia é, de fato, sermos uma empresa regional contígua entre América do Sul, Central e Norte, onde nós aproveitaríamos essa estratégia para exportar a partir da Bahia”, disse o executivo.
Apesar da manifestação de interesse, a transação para a aquisição do porto ainda se encontra em fase de tratativas com o poder público baiano.
Início da produção local completa e foco no Mercosul
Atualmente, as instalações de estamparia, soldagem e pintura do polo industrial estão em período de testes, com término previsto para novembro. A montagem integral tem início previsto para o período entre o fim de novembro e meados de dezembro, marcando o fim do modelo de importação pré-montada, no qual a unidade baiana apenas adicionava pneus, propulsores e outros elementos pontuais.
Com as novas etapas em funcionamento, o processo fabril brasileiro passa a modelar as chapas de aço, soldar as peças estruturais e aplicar a pintura protetiva contra corrosão antes da conferência final. O primeiro modelo a passar pelo processo completo será o híbrido plug-in Atto 2, equipado com motorização compatível com etanol e gasolina, cujos valores variam entre R$ 149.990 e R$ 166.660.
A internalização dessas linhas industriais também permitirá à marca alcançar o índice mínimo de 35% de componentes locais, critério exigido pelas regras de comércio exterior vigentes no Mercosul.
Geração de empregos e expansão em Camaçari
Com um investimento total de R$ 11 bilhões e uma área construída de 1 milhão de metros quadrados — com planos de dobrar a estrutura futuramente —, o polo de Camaçari é a principal unidade produtiva da companhia fora da China. O ritmo atual de fabricação é de cerca de 700 carros por dia, englobando modelos como Dolphin Mini, Song Pro, King e o próprio Atto 2.
O avanço industrial deve impactar positivamente o mercado de trabalho regional. A planta emprega diretamente 9 mil colaboradores e prevê expandir esse quadro para 10 mil postos ainda em 2026. A meta de longo prazo, após a conclusão total dos aportes previstos, é atingir a marca de 20 mil empregados.
Um levantamento realizado pelo Observatório da Indústria da Fieb revelou que o rendimento médio na fábrica é de R$ 3,9 mil, número 24% superior à remuneração média da indústria na Bahia. O impacto financeiro e social gerado pelo complexo automotivo segue sob monitoramento conjunto entre a instituição patronal e a direção da empresa.
Cenário competitivo e expansão de veículos importados
A evolução da operação baiana acontece em meio ao fortalecimento das marcas chinesas no comércio automotivo brasileiro. Dados divulgados pela Anfavea indicam que o Brasil registrou a importação de 406,7 mil automóveis nos primeiros oito meses de 2026, um crescimento de 29,8% frente ao mesmo período de 2025. Desse montante, 221 mil veículos tiveram origem na China, o que representa uma alta anual de 109,9%.
A rápida movimentação das companhias asiáticas motivou pronunciamentos de líderes tradicionais do setor, como Herlander Zola, presidente da Stellantis para a América do Sul. O executivo apontou que o setor automotivo ocidental subestimou a velocidade da transição energética e alertou para as dificuldades de competitividade estrutural no Brasil, onde matérias-primas essenciais como aço, borracha e plásticos frequentemente têm custos superiores aos equivalentes chineses.
Diante desse cenário de transição, a efetivação das etapas fabris em Camaçari e a viabilização da saída logística pelo porto de Candeias serão determinantes para consolidar a presença da fabricante no Brasil e em todo o continente americano.







