O falecimento do célebre ator britânico Patrick Stewart, aos 86 anos, trouxe à tona discussões sobre a doença de Alzheimer e a demência com corpos de Lewy, duas condições neurodegenerativas que o artista enfrentava simultaneamente. Reconhecido mundialmente por papéis marcantes como o Professor Charles Xavier no universo dos X-Men e Jean-Luc Picard na franquia Star Trek: Uma Nova Geração, o artista morreu em uma quarta-feira, 28 de outubro, fato confirmado por seus familiares no dia seguinte, 29 de outubro.
Embora provoquem deterioração cognitiva e perda de funções vitais no cérebro, as duas patologias atuam sob processos biológicos distintos. Ambas possuem caráter progressivo e continuam sem cura definitiva, porém a identificação médica precisa é determinante para garantir qualidade de vida ao paciente.
A relevância clínica dessa distinção é apontada pelo Dr. Fabiano de Abreu Agrela, pós-PhD em neurociências e diretor científico do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH):
“O Alzheimer e a demência de corpos de Lewy são condições distintas, apesar de compartilharem características relacionadas ao declínio cognitivo. As duas são progressivas e ainda não têm cura, mas o diagnóstico correto é fundamental para orientar o tratamento, controlar sintomas quando possível e oferecer suporte adequado ao paciente e à família”, explica o especialista.
Como age a doença de Alzheimer?
Considerada a modalidade de demência de maior prevalência no mundo, o Alzheimer é provocado pela concentração disfuncional das proteínas beta-amiloide e tau no tecido cerebral. Essa sobrecarga prejudica as sinapses e a integridade dos neurônios, desencadeando um processo contínuo de declínio mental.
O sinal clássico inicial envolve o comprometimento da memória de curto prazo. Pessoas acometidas tendem a repetir indagações, esquecer diálogos recentes e enfrentar dificuldades para recordar episódios rotineiros. Conforme o quadro ganha terreno, a capacidade de comunicação verbal, a orientação de tempo e espaço e a habilidade para executar planos diários acabam severamente atingidas.
“O Alzheimer costuma começar com alterações na memória recente, mas não se limita a esse aspecto. À medida que a doença avança, outras funções cognitivas podem ser comprometidas, afetando a autonomia e a capacidade de realizar atividades habituais”, afirma Fabiano de Abreu Agrela.
Anatomicamente, o problema costuma se originar no hipocampo e no córtex entorrinal, áreas centrais para a fixação de lembranças, espalhando-se posteriormente para os setores cerebrais que regem raciocínio, atenção, fala e julgamento. Nos estágios mais severos, a perda total de independência se estabelece, em um ritmo que se manifesta de modo particular em cada paciente.
O que caracteriza a demência com corpos de Lewy?
Provocada pelo depósito atípico da proteína alfa-sinucleína nos neurônios — estruturas denominadas corpos de Lewy —, essa condição afeta diretamente circuitos cerebrais ligados à cognição, ao comportamento, aos ciclos de sono e ao controle dos movimentos.
Ao contrário do Alzheimer, o esquecimento recente pode não ser o sintoma predominante na fase de estreia. O quadro destaca-se por oscilações abruptas no estado de vigília e foco, presença de alucinações visuais bastante nítidas, além de manifestações motoras parecidas com as do mal de Parkinson, como lentidão motora e rigidez nos músculos. Perturbações no sono REM, com movimentação física intensa durante sonhos, também são frequentes.
“As flutuações cognitivas podem fazer com que a pessoa pareça estar lúcida e atenta em determinado momento e, horas depois, apresente confusão ou sonolência acentuada. As alucinações visuais também podem envolver imagens detalhadas de pessoas, animais ou objetos que não estão presentes”, explica Fabiano de Abreu Agrela.
A sobreposição com traços parkinsonianos é um ponto central na avaliação clínica, já que reúne alterações neurológicas complexas em um mesmo espectro.
“Na demência de corpos de Lewy, chama a atenção a combinação de alterações cognitivas com manifestações perceptivas e motoras. A atenção pode variar bastante, e alguns pacientes apresentam alucinações visuais e sinais semelhantes aos observados na doença de Parkinson. Reconhecer esse conjunto de características ajuda a direcionar a investigação clínica”, acrescenta o especialista.
Principais contrastes e caminhos de cuidado
A linha divisória entre ambos os diagnósticos se torna evidente ao observar a ordem em que os sintomas despontam. No Alzheimer, a incapacidade de reter novas lembranças se destaca desde o início. Por outro lado, na demência com corpos de Lewy, alterações motoras, desvios na percepção visual e oscilações bruscas de consciência costumam liderar o quadro inicial.
O diagnóstico personalizado é indispensável para orientar a conduta médica, principalmente porque substâncias farmacológicas comuns no manejo de uma demência podem ser contraindicadas ou exigir monitoramento redobrado na outra, assegurando o melhor acolhimento possível aos enfermos e seus familiares.







