Entre a polarização e uma terceira via: o que a Democracia Cristã pode oferecer ao Brasil
Por Germano Vettas
A eleição presidencial de 2026 chega a um de seus momentos mais importantes marcada por uma disputa que, até aqui, tem novamente colocado dois grandes campos políticos no centro do debate nacional: de um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT); de outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL).
As pesquisas divulgadas em setembro mostram uma disputa acirrada entre os dois. No levantamento Datafolha realizado entre 15 e 17 de setembro, Lula apareceu com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 36% de Flávio Bolsonaro, dentro da margem de erro. Outros levantamentos recentes também mostram uma competição sem definição antecipada.
Mais importante do que transformar pesquisas em prognósticos é observar o que essa disputa representa para o país.
Lula representa a continuidade de um projeto político
Luiz Inácio Lula da Silva busca um novo mandato apresentando sua experiência de governo e defendendo políticas voltadas à redução da pobreza, programas sociais, investimentos públicos e participação do Estado na promoção do desenvolvimento econômico.
Em sua campanha atual, Lula tem destacado medidas relacionadas ao Bolsa Família e questões econômicas e sociais. Também assumiu uma posição crítica em relação às casas de apostas, defendendo medidas mais restritivas para o setor.
O projeto lulista, portanto, está associado à continuidade de uma visão na qual o Estado possui papel relevante na proteção social, na redução das desigualdades e na indução do desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, esse modelo coloca desafios conhecidos: equilíbrio das contas públicas, eficiência do gasto, qualidade dos serviços públicos e capacidade de gerar crescimento econômico sustentável.
Flávio Bolsonaro representa a continuidade de outro campo político
Flávio Bolsonaro, por sua vez, representa na eleição presidencial de 2026 o campo político associado ao bolsonarismo.
Sua campanha tem enfatizado temas como segurança pública, combate à criminalidade e críticas à atuação de instituições do Estado. Nas últimas semanas, porém, a estratégia eleitoral passou por mudanças e incorporou também temas relacionados à proteção das mulheres e à agenda social.
A candidatura de Flávio ocorre em um ambiente no qual a polarização política continua sendo um elemento importante do comportamento eleitoral. O Datafolha divulgado em setembro registrou índice de rejeição de 47% tanto para Lula quanto para Flávio Bolsonaro.
Isso revela uma característica importante da eleição: existe um eleitorado fortemente identificado com cada um dos dois principais campos, mas também existe uma parcela significativa da população que demonstra resistência aos dois projetos.
É justamente nesse espaço que outras propostas procuram se apresentar.
E onde entra a Democracia Cristã?
A Democracia Cristã disputa a Presidência em 2026 com Clariana Barão, tendo Fabiana Torquato como candidata a vice. O registro da chapa foi validado pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Clariana Barão é advogada, tem especialização em Direito Administrativo e Gestão Pública e, segundo a Agência Brasil, esta é sua primeira disputa por um cargo eletivo. Seu programa coloca a proteção de mulheres e crianças entre as prioridades, propondo uma rede nacional de proteção contra a violência e ações voltadas à primeira infância e à autonomia econômica das mulheres.
Mas a Democracia Cristã não se resume à pauta social apresentada na campanha atual.
O programa partidário oficial defende uma sociedade que combine liberdade, justiça e solidariedade. O documento coloca a pessoa humana no centro da vida política e afirma que o Estado deve estar a serviço da sociedade. Também defende igualdade de oportunidades, liberdade de expressão, moradia, saúde, educação, trabalho, segurança e dignidade.
Na economia, o partido declara apoio à livre iniciativa, à propriedade privada com função social e às micro, pequenas e médias empresas. Também defende o fortalecimento da produção agropecuária, da indústria, do comércio, do turismo e do cooperativismo.
Uma proposta entre Estado e mercado
Um dos elementos que merece atenção na Democracia Cristã é justamente a tentativa de não colocar o debate econômico exclusivamente entre dois extremos.
De um lado, existe a defesa de políticas sociais e da responsabilidade do Estado pelo bem comum. De outro, existe o reconhecimento da importância da iniciativa privada, da propriedade, do empreendedorismo e da geração de empregos.
Na prática, essa combinação propõe uma pergunta relevante para o Brasil: é possível buscar crescimento econômico sem abandonar a proteção social e, ao mesmo tempo, ampliar a responsabilidade individual e a participação da sociedade civil?
A resposta depende das políticas concretas que forem apresentadas para transformar princípios em resultados.
O desafio da democracia brasileira
A eleição de 2026 também oferece uma oportunidade para que o debate político ultrapasse a simples disputa entre Lula e Bolsonaro — ou entre esquerda e direita.
A democracia não se resume à escolha de um presidente. Ela depende do funcionamento das instituições, da liberdade de imprensa, do respeito às regras eleitorais, da independência dos Poderes, da responsabilidade fiscal, da proteção dos direitos individuais e da participação dos cidadãos.
Nesse ponto, o programa oficial da Democracia Cristã apresenta como prioridades o fortalecimento das instituições democráticas, o combate aos privilégios e à corrupção, o aperfeiçoamento do Judiciário, o fortalecimento da Federação e o estímulo à participação política.
Esses temas não pertencem exclusivamente a um partido. São questões que podem ser cobradas de qualquer candidato.
O Brasil precisa olhar para além da polarização
A polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro é um dos principais fatos políticos da eleição de 2026. Mas a existência de outros candidatos demonstra que o eleitor brasileiro tem diante de si mais de duas alternativas.
A Democracia Cristã apresenta uma proposta que procura combinar valores sociais, liberdade econômica, solidariedade e fortalecimento institucional. Sua candidatura também coloca no debate nacional temas como proteção da infância, segurança, mulheres, dignidade humana e participação social.
O desafio para a legenda é transformar esses princípios em propostas detalhadas, metas mensuráveis e políticas públicas capazes de responder aos problemas concretos do país.
Para o eleitor, o caminho passa menos pela escolha de slogans e mais pela comparação dos programas: como cada candidatura pretende controlar as contas públicas? Como pretende melhorar saúde e educação? Que política de segurança defende? Como pretende gerar empregos? Qual será o papel do Estado? Como pretende preservar as instituições democráticas?
Essas são perguntas que merecem respostas objetivas.
No fim, uma democracia madura não depende apenas de quem ocupa o Palácio do Planalto. Depende também da capacidade da sociedade de discutir projetos diferentes, cobrar resultados e reconhecer que divergência política faz parte da própria democracia.
Em 2026, portanto, a questão não é apenas escolher entre dois grandes campos políticos. É também compreender que modelo de país cada candidatura propõe e quais caminhos pretende utilizar para chegar até ele.
E é nesse espaço de comparação de ideias — entre Estado e iniciativa privada, liberdade e responsabilidade, crescimento e justiça social — que a Democracia Cristã procura apresentar sua alternativa ao eleitor brasileiro.







